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Bolsonaro é hoje o que Lula era em 2002, diz Mário Rosa

POR GBrasil | 09/10/2017
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O ex-capitão do Exército Jair Bolsonaro capitaliza hoje a mesma sensação de medo que a eleição de Lula capitalizava no passado e o seu crescimento nas pesquisas resulta apenas do descrédito de políticos mais palatáveis ao estabilishment. No entanto, não se pode dizer que ele é um outsider: Bolsonaro é filho da democracia e joga dentro das regras do sistema democrático há 30 anos. A análise é de Mário Rosa, um dos mais conceituados gestores de crises do País, e está no artigo que ele publicou no site Poder 360. Confira a íntegra.

 

Era uma vez um líder radical que provocava pânico nos eleitores de centro e nos setores que abominam radicalismos. Daí, esse líder foi trilhando os caminhos da democracia, submetendo-se sucessivamente a eleições, aceitando as regras do jogo democrático.

 

Para muitos, muitos mesmo, apesar de décadas dentro da política, mas sempre na oposição, era visto com desconfiança. Sua vitória final, numa disputa presidencial, seria apenas o atalho para um golpe, a tomada do poder pelos xiitas.

 

Era tudo isso o que se dizia de Luiz Inácio Lula da Silva. Agora é o que se diz de Jair Bolsonaro.

 

É curioso, mas em certos aspectos as trajetórias desses dois personagens antagônicos têm alguns pontos de similaridade.

 

Em certo momento, diante do esgotamento dos políticos das legendas mais assimiláveis pelo establishment, após frustrações acumuladas, foi necessário buscar alguém nos limites extremos do território político para o centro do jogo. Foi o caso de Lula, em 2002. Mas note-se: Lula estava dentro de campo, estava atuando na política tradicional e não fora das quatro linhas da democracia. Assim como Bolsonaro.

 

Podem doer os olhos, arderem as pupilas ler isto. Pode causar urticária, ânsia de vômito, náuseas. Mas Bolsonaro é um filho da democracia, assim como Lula era antes de tornar-se presidente.

 

Retórica assustadora? E a de Lula? Não deve ter existido nenhuma barbaridade que não tenha falado ao longo de sua escalada ao poder: rompimento com o FMI (quitou depois a dívida externa em seu governo), calote nos bancos internacionais (foi o pai dos pobres e a mãe dos ricos, como diziam no passado de Getulio Vargas).

 

Bolsonaro fala o diabo? Mas tem precedente. Um dia, Lula inventou o Lulinha Paz e Amor, a carta ao povo brasileiro e ficou “fo-fo”.

 

Bolsonaro exerce seu 6º mandato consecutivo. É um insider. Pode virar um ditador? Diziam isso de Lula. Foi um dos presidentes mais democráticos de nossa história. E aqueles que diziam isso dele são detratores hidrófobos cujos nomes ninguém lembra mais. O “sapo barbudo”, Lula, era um espantalho usado pelos que não queriam sua eleição.

 

Queriam outros bichos da floresta e, por isso, baixavam o porrete no sapo. O problema é que um dia o sapo ganhou e só ganhou, como diria Acácio, porque tinha mais votos do que todas as outras espécies. Agora, dizem que o ex-capitão do Exército vai colocar a democracia no bolso. Será?

 

O fato é que inventar o fantasma Bolsonaro pelo que ele vai fazer –e não pela avaliação do que ele fez ou das propostas que apresentar– é uma manipulação do debate. Assim como já fizeram com Lula. A campanha do medo.

 

Bolsonaro pode virar um ditador? Claro que pode. Qualquer um pode. Mas isso vai depender mais do colapso da democracia do que da sordidez do presidente de plantão.

 

Então quer dizer que não temos instituições? Quer dizer que não temos Justiça? Não temos Ministério Público? Não temos imprensa livre? Não temos livre mercado? Não temos movimentos sociais, sindicatos, organizações não governamentais? Não temos milhões e milhões de jovens estudando e em universidades, com capacidade crítica? Não temos um ambiente de negócios liberal onde empresas precisam operar em países que respeitem regras previamente definidas, a começar pela Constituição? Não temos redes sociais? Somos ovelhinhas?

 

Então, uma eventual eleição de Bolsonaro representaria o fim de toda a solidez da estrutura de nossa democracia? Se isso acontecesse, não seria por causa dele. Seria porque nossa democracia estaria tão em frangalhos, nosso sistema social tão vulnerável, nossas costuras socioeconômicas tão rotas, que Bolsonaro (ou qualquer outro) seria o efeito –e não a causa da disrupção.

 

Isso nos coloca uma questão que vai além de Bolsonaro: precisamos aumentar nossa autoestima democrática. Quando dizem que qualquer mudança pode acabar com a Lava Jato, isso significa a fragilidade da operação e de nosso salto cultural no combate à corrupção.

 

Se realmente tivermos evoluído como sociedade, os protagonistas da operação podem mudar, mas os sistemas de controle e de combate aos malfeitos estarão aí. O nome disso é instituições. E elas são impessoais, não dependem de indivíduos. E quanto mais civilizados os países, mais fortes as instituições. Ou seja, menos dependentes de pessoas eles são.

 

Trazendo de volta para a política, será motivo de comemoração se um dia Bolsonaro virar presidente. E quer saber: se um sujeito muito, muito pior que ele assumir o Planalto, melhor ainda! Sabe por que? Porque democracias boas são aquelas que podem se dar ao luxo de ter presidentes péssimos. E as coisas continuam andando normalmente.

 

Vejam o exemplo dos Estados Unidos: já tiveram presidentes da pior espécie. Mas lá as instituições são tão boas que…tanto faz.

 

Não acho que Bolsonaro possa ser julgado nessa categoria de péssimo. Acho que, na realidade, sabemos todos muito pouco sobre ele. Conhecemos um personagem histriônico. Muitos simpatizam, muitos têm horror. Foi assim com Lula. No fundamental, que vivamos muitos anos de democracia, muitos e muitos anos, até chegar o dia que pouco importa quem nos governa.

 

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