E se for erro Hollywood tentar apagar Kevin Spacey do mapa?

POR Colunista Entretenimento | 13/01/2018
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Esses são os fatos: após Kevin Spacey (Nova Jersey, 1959) cair em desgraça, acusado de abuso por mais 13 homens além do ator Anthony Rapp, seu assessor se demitiu, sua agência de relações públicas o demitiu e a Netflix decidiu eliminar seu personagem da bem-sucedida série House of Cards e cortar qualquer relação contratual com ele.

 

Todas essas decisões eram previsíveis. Significam o procedimento habitual de uma indústria gigante para se desfazer de suas maçãs podres e evitar uma crise de imagem que pode custar milhões de dólares. Mas outra decisão anunciada essa semana não tem precedentes: a Sony Pictures e Ridley Scott decidiram eliminar todas as cenas de Kevin Spacey do filme Todo o Dinheiro do Mundo a um mês e meio da estreia e filmá-las de novo com outro ator. Christopher Plummer será o encarregado de dar vida ao multimilionário do petróleo J. Paul Getty no filme baseado no caso real de sequestro de seu neto. Kevin Spacey foi, literalmente, apagado do mapa.

 

É uma boa decisão? Muitos veículos de comunicação da imprensa dizem que sim. A publicação especializada Variety, por exemplo, dedicou no sábado uma coluna de opinião para elogiar a produtora norte-americana e o diretor inglês pela decisão. Em seu texto se fala de como isso será positivo à imagem de seus responsáveis, das possibilidades que ganha em relação ao Oscar (muitas apostas dizem que o filme pode dar a primeira estatueta a Ridley Scott) e indica que há muito dinheiro em jogo.

 

Em resumo: a decisão responde aos interesses de executivos que lidam com contas e números, mas não é mencionada a intenção de se respeitar as vítimas de Spacey. Demonstra também como uma indústria é capaz de passar de zero a cem levada pela crise de imagem e as circunstâncias: do “todo mundo olhou para o outro lado” à drástica medida de exílio se passaram, literalmente, dez dias. E, sobretudo, perpetua uma forma infantil de lidar com o público, que Hollywood considera incapaz de discernir entre a realidade e a ficção e incapaz de aceitar que uma pessoa má pode ser um bom profissional e vice-versa.

 

Kevin Spacey deveria enfrentar seus crimes e pagar por eles diante da lei, não ser apagado dos olhos de um público que não parece suportar a ideia de que os criminosos existem. Um espectador adulto deveria ser capaz de aceitar a ideia de que uma pessoa desprezível pode ser um bom profissional, de que pode se deleitar com o talento de alguém nas telas e condenar energicamente seu comportamento atrás das câmeras. Não é preciso louvá-lo e defendê-lo, mas sim permitir que se há um filme em que fez um trabalho magistral (a TriStar havia preparado uma grande campanha para levá-lo ao que seria seu terceiro Oscar, após os obtidos por Os Suspeitos em 1996 e Beleza Americana em 2000) o público o veja e possa julgá-lo por seu talento. Se for preciso, pela última vez.

 

Mas a leitura que a maioria escolheu é que a indústria do entretenimento produz não só profissionais e prêmios, mas ídolos que muitos jovens tomam como modelo de comportamento e, portanto, deve expulsar todas as suas maçãs podres para dar o exemplo. Bem, aceitemos. Mas essa seria uma boa ideia se fosse realmente colocada em prática. O problema vem quando algumas maçãs podres continuam trabalhando e outras não, sem saber muito bem quais são os critérios que decidem se devem ou não ser expulsas do paraíso.

 

O mesmo filme do qual Kevin Spacey será eliminado é protagonizado por Mark Wahlberg, que fez declarações racistas e homofóbica em várias ocasiões. E que acumula esses incidentes: em 1986 foi preso por jogar pedras em grupos de crianças afro-americanas em duas ocasiões; também em 1986 agrediu com um pedaço de pau um vietnamita chamado Thanh Lam até deixá-lo inconsciente e depois atingiu no olho outro vietnamita chamado Hoa Trihn, e em 1992 agrediu um rapaz de 20 anos chamado Robert D. Crehan e rompeu sua mandíbula.

 

A Sony, a mesma produtora que desterrou Kevin Spacey, tentou em 2016 conseguir os direitos de distribuição de Manchester à Beira-Mar, o filme que deu a Casey Affleck um Oscar após uma campanha de apoio e divulgação feita sob medida. Casey Affleck foi acusado em 2010 de assediar sexualmente a diretora de fotografia Magdalena Gorka e a produtora Amanda White. Uma delas disse que Casey entrou em sua cama enquanto ela dormia, a outra que tentou prendê-la em seu quarto de hotel de maneira violenta. Ambas afirmam que Affleck abusou verbalmente delas. O canal de televisão ABC teve acesso às denúncias das duas mulheres e as publicou em seu site. Podem ser lidas aqui e aqui. O assunto foi resolvido com um acordo extrajudicial e as acusações foram retiradas em 2010.

 

Em todo caso, a indústria do entretenimento continua cheia de artistas reverenciados que foram acusados de – e alguns casos condenados por – cometerem coisas horríveis. Alfred Hitchcock. Roman Polanski. O diretor Victor Salva. O produtor Dr. Luke. O rapper e produtor R. Kelly. James Brown, Ike Turner e Miles Davis foram abusadores que transformaram a vida de suas esposas em um inferno. Mike Tyson. Rick James. Chris Brown. Josh Brolin. Nicolas Cage. Até John Lennon reconheceu em uma entrevista à Playboy que em sua juventude havia sido um homem violento que agrediu homens e mulheres.

 

Todos eles, ou continuam trabalhando com sucesso hoje em dia, ou continuaram a fazê-lo muitos anos depois da divulgação das acusações. Faria sentido a Netflix retirar de sua plataforma o elogiado filme Os Meyerowitz: Família Não Se Escolhe (Noah Baumbach, 2017) para regravá-lo substituindo Dustin Hoffman, acusado de assédio pela atriz Meryl Streep, pela escritora Anna Graham e pela produtora Wendy Riss? Kevin Spacey não terá a sorte dos acima mencionados. Os fatos pelos quais foi acusado não são piores do que os cometidos por alguns dos profissionais que acabamos de mencionar, mas ele teve a má sorte de chegar em um momento em que estão em jogo um filme de orçamento milionário, uma corrida rumo ao Oscar e redes sociais de curta memória dispostas a arder.

 

Tudo isso não esconde o fato de que é uma pessoa cujo comportamento deplorável deve ser condenado. Curiosamente, o personagem que interpretava em Todo o Dinheiro do Mundo, o avarento multimilionário J. Paulo Getty, também era. Para uma audiência que de acordo com Hollywood não sabe diferenciar realidade de ficção, o exercício de metonímia nessa ocasião teria sido mais fácil do que nunca.

 

TEXTO PUBLICADO NO EL PAÍS

 

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