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Documentário mostra doping como política de Estado na Rússia

POR Colunista Entretenimento | 04/02/2018
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Deu na imprensa: tribunal (CAS, a Corte Arbitral do Esporte) revoga punição por doping de atletas russos. Muitos deles haviam sido condenados pelo resto da vida a não participar de competições oficiais por conta de doping na Olimpíada de Inverno de Sochi, em 2014, e 28 conseguiram reverter a pena. A coisa ainda vai render, porque o COI (Comitê Olímpico Internacional) era quem os havia condenado com base em depoimento de Grigory Rodchenkov, então diretor da agência antidoping de Moscou. Ele é o personagem central do documentário Ícaro, concorrente ao Oscar em sua categoria e disponível na Netflix.

 

O filme é dirigido por Bryan Fogel. O próprio Fogel é um ciclista amador que, via Skype, recebe instruções de Rodchenkov sobre a melhor maneira de melhorar seu desempenho, com anabolizantes e outras drogas. E, mais importante, como não deixar traços no organismo que possam ser detectados nos exames antidoping. Rodchenkov prevê todo um programa para que Fogel aumente seu desempenho em provas de ponta na Europa. 

 

Entretanto, o projeto de Fogel se amplia de maneira inesperada. De início, pensava apenas submeter-se, como cobaia, de um processo de dopagem para analisar os efeitos sobre seu próprio organismo. Para tanto, pede ajuda a um papa do assunto, Rodchenkov. Mas depois a coisa toma outro rumo e Fogel percebe que está mexendo com assunto muito mais explosivo do que supunha a princípio. 

 

Em conversas com Rodchenkov, desvenda-se todo o esquema de dopagem que funcionava como política de Estado. Era a pessoa privilegiada para fazê-lo, justamente porque chefiava o laboratório estatal antidoping. Cientista especializado em descobrir todas as burlas possíveis para esconder traços de dopagem. E, como consequência, para usá-las em seu favor caso assim decidisse. 

 

Na verdade, não se trata de decisão pessoal, mas parte de uma política de Estado. Ele seria apenas uma peça nessa engrenagem coletiva. Peça fundamental, que, por sua posição, detinha o conhecimento de todas as etapas do processo de dopagem em massa e dos procedimentos para apagar traços da sua existência. Entre outros, a sistemática troca de frascos de urina dos atletas por outros que continham urina “limpa”, embora isso fosse considerado impossível pelas medidas de segurança adotadas. 

 

Após fornecer informações provando o envolvimento de funcionários do governo russo no esquema, Rodchenkov passou a ser perseguido. Saiu da Rússia e diz que dois colegas haviam morrido em circunstâncias no mínimo misteriosas. Abrigou-se nos Estados Unidos e “desapareceu” num programa de proteção a testemunhas. 

 

O documentário extrapola de forma criativa suas intenções originais. Situa-se no olho do furacão de um escândalo esportivo internacional com repercussões políticas. Sim, porque só os ingênuos acreditam que política e esporte não mantêm laços entre si. Vladimir Putin, esta semana mesmo, “pediu desculpas” aos atletas do seu país por não ter podido defendê-los de forma adequada. Quer dizer, o doping como programa de Estado jamais seria admitido. A Rússia recebe a Copa do Mundo em junho deste ano e estará sob atenção mundial. 

 

Os atletas russos “perdoados” podem participar da Olimpíada de Inverno, fevereiro, em PyeongChang, na Coreia do Sul. Após o caso de Sochi, a Rússia havia sido banida dos jogos coreanos. Mas 169 russos foram autorizados a participar na condição de atletas individuais, sem direito a bandeira ou a cantar o hino em caso de ouro. 

 

Pela importância do assunto, Ícaro surge como um dos favoritos ao Oscar. O filme é eficaz ao desvendar não apenas um esquema de dopagem, mas a personalidade de um dos seus autores, o carismático fanfarrão Grigory Rodchenkov.

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